Radioterapia: canseira e medo

No início era o desconhecido. Um médico burocrata. Enfermeiros interessantes. Looongas esperas. E assim cheguei ao AC Camargo, um dos grandes centros de tratamento de câncer do Brasil. Já havia visitado o site muitas vezes, porque lá estão todos os direitos do paciente, há toneladas de informação.

Tudo muito organizado, com longas filas de espera para consultas e procedimentos… Mas tudo passa quando chega a hora do tratamento diário. Sim, todos os dias úteis, desde o dia 10 de janeiro e por 30 consecutivos, estou sempre às 19h embaixo da máquina para fazer a minha sessão de 30 segundos de radiação.

As orientações são entregues para os pacientes impressas e são claras:

Radioterapia é o uso de radiações ionizantes pra destruir ou inibir o crescimento de células doentes. O objetivo é eliminar completamente a doença (ou impedir a sua progressão). Os passos são:

  • Simulação: são simuladas as condições de tratamento, com Raios-X, para delimitar a área a ser irradiada e o posicionamento do paciente. As áreas chamam-se campos de radiação. Na maioria das vezes a pele do paciente é marcada com tinta especial que serve para direcionar as aplicações (por isso não deve ser apagada). No meu caso são três pontinhos, tatuagens feitas com nanquim, no meio dos peitos e embaixo dos braços, que servem para me colocar direitinho embaixo da máquina. A simulação demora de 30 a 60 minutos e pode ser repetida durante o tratamento. Para fazer tudo direitinho, é preciso levar os exames de imagem e os nomes dos medicamentos em uso. 
  • Planejamento: com os cálculos obtidos durante a simulação são feitos os cálculos das doses diárias e do período de administração da radioterapia. É aqui que se faz o teste de bloco (no meu caso, uma “cama” onde o tórax encaixa na posição que eu fico) para ver se está tudo bem certinho. O bloco é meu, tem nome e RGH (meu registro no hospital) e é colocado lá pra mim todo dia.

Tratamento

  • A gente vai todo dia, de segunda a sexta, sempre no mesmo horário. Escolhi à noite (19h) porque, apesar da muvuca do metrô, é mais tranquilo.
  • Quinzenalmente tem consulta de revisão, quando o médico conversa com a gente e vê se está tudo bem. Já fiz duas, faltam duas.
  • Para maior conforto, roupas de algodão. (sim, a radio QUEIMA a pele. Coisa chata).
  • Líquidos são nossos amigos.
  • Não use cremes ou pomadas além das indicadas na região.
  • Não tome banho de mar ou piscina durante o tratamento.
  • Para higiene, use produtos neutros para evitar irritações.
  • Não use desodorante, perfumes, talcos e similares perto da área de tratamento.
  • Secar a área com toalha macia e de forma suave (sim, tá machucado)
  • Evite usar lâminas de barbear que não sejam flexíveis – graças, os pelos do lado direito não estão crescendo!
  • Descanse sempre que o corpo pedir, é comum sentir-se cansado durante o tratamento. (com isso já perdi até uma sessão de tratamento)

Importante: paciente que faz radioterapia pode ter contato normalmente com outras pessoas – ele não fica radioativo.

Além disso tudo: faço compressas com chá de camomila na região (peito direito) três vezes por dia, por 15 minutos no mínimo. O chá deve estar em temperatura ambiente. A camomila (principalmente as flores) tem ação antiinflamatória, cicatrizante e e ótima para suavizar os efeitos colaterais do tratamento.

Por fim, a gente tem cremes prescritos especialmente para o nosso caso. Eu estou usando um de aloe vera, que é luz, estrela e luar.

Efeitos

No começo parece que nada está acontecendo. Com 15 dias, as queimaduras aparecem. A pele começa a incomodar (mesmo com as compressas de camomila). Eu brinco que tô fazendo concurso de “meia camiseta molhada” (e manchada, quando é clara). Passo o dia todo (exceto fora de casa) com a compressa, trocando sempre que seca.

Cansaço (chama astenia em mediquês): muuuuito. Passo o tempo todo me sentindo um pano de chão.

Noves fora, radioterapia no seio não tem maiores danos. Tô morta de vontade de dar um mergulho no mar (só porque não pode, sabemos). E parei de contar as sessões e o tempo. Quando acabar, tenho certeza que a dupla Rô e Rô (Rogério e Rosana, que cuidam de me ionizar) vão avisar! 😀

E o medo apareceu

Graças ao encontro diário, sempre na mesma hora, a gente faz turminhas nas máquinas. São quatro em operação 5×12 (5 dias por 12 horas). E a gente vai conhecendo outros causos. O moço que tem câncer na faringe e não consegue falar nem engolir… a menina que teve câncer no útero. Dois terços das mulheres estão tratando câncer de mama. O marido islamita e a mulher coberta. A moça que teve câncer de mama e está com metástase no cérebro…

E o medo, que raramente apareceu, dá as caras. Junto com a canseira, ele marca o tempo, as batidas do coração. A gente percebe que o que já é ruim pode piorar. Vê gente muito nova com câncer. Velhinhos. Gente como a gente. Gente diferente. Até um ser humano sem rosto eu já vi.

Contra o medo, haja luz. A melhor receita sempre é olhar o moço nos olhos, saber qual é a sua cor, o seu tamanho, seu sabor. E aí vai conhecendo, conversando, tratando. Não é exatamente fácil, ou simples. É possível.

foto: Gabi Butcher, CC-SA

Festerê descabelante

 

Daí que eu, Gabi Butcher e Letícia Massula ficamos com um quê de precisamos continuar a onda dos ensaios. E aumentamos a roda. Em julho, numa noite meio fria, a gente juntou uma mulherada linda só pra mostrar que eu tinha raspado ainda mais o cabeção:

Nuna, meu farol da cura (achei o título dela). Ela é a minha inspiração para seguir lutando e vencer todos os obstáculos. Acho que ela sabe disso, porque com os seus e-mails pontuais, foi quem me guiou o tempo todo, a parte mais importante da equipe gigante que cuida de quem tem câncer de mama: quem já passou por tudo. A dica certeira, o melhor conselho, a tranquilidade para encarar o caminho eu suguei dela. Sem medo, porque foi de uma generosidade única!

Charô – mulher guerreira. Oxe! Outra vítima do câncer de mama – totalmente diferente do meu e do da Nuna – também fez o que pode para me afofar. Uma linda, minha mestra de cidadania, negritude e amor. É de uma timidez disfarçada. Tem olhos delicados e artísticos. Uma filha maravilhosa. E aproveita para deixar em todas nós, que temos o prazer de conviver com ela, a marca da beleza e da lucidez.

Cecília Santos – ô linda. Essa mulher fez e faz de tudo pra ajudar a dona Joaninha lutadora. Sempre. Já já a gente vai contar a última novidade por aqui. Amor, carinho e companheirismo em uma pessoa só. Cuida das amigas, do pintinho, da @bebeia da Re Correa. É uma linda!

MaWá – bah, essa também é puro amor. Eu acho que conheci num Blogcamp, antes dela namorar, noivar e casar com o Weno (outro querido, que não está nas fotos, mas foi me dar beijo e abraço). Sabem gente linda? É a MaWá, com seus vestidos maravilhosos, sorriso enorme, generosidade gigante. Tem como não amar?

Lara Januário – entrou na minha vida pela portinha do lado, com seu sorrisão, energia e graça de goiana. Ganhou meu coração sem que eu percebesse. E virou professora, junto com a Charô, para abrir os olhos do que a gente não gosta de ver: racismo. Lara linda. Cozinheira de mão cheia, hoje faz par com dona Letícia e as duas inventam delícias que encantam!

Carla do Brasil – “a moça do batom vermelho” hoje e sempre, mesmo quando está sem batom. Profissional da saúde, cuidadosa, linda, carinhosa. Companheira de jornada, de objetificação, de vida. Blogueira de muitos blogs, que hoje está sem nenhum. E sempre interneteira, deixemos claro.

 

As Radioativas

Denise Rangel – Como podem duas pessoas tão diferentes se gostarem tanto? Denise representa a mãe, a mulher forte que enfrenta as durezas com doçura. Chegou de longe para perto, graças ao nosso mútuo interesse pelo verde, pela vida, pela preservação do planeta. Com ela vieram os filhos e a Princesinha, sua neta linda, que também me mima. Puro amor – que veio a SP nas férias me acompanhar na quimio, cuidar com o carinho que só ela tem.

Letícia – ah, serhumana! Os olhos molham só de pensar… Começo pela perfeição de cada detalhe? Ou pelo carinho enorme? Ou pela casa sempre em festa prxs amigxs? Mulher pequena, forte no último grau, cheia de músicas, arte, ideais e amor pra compartilhar. E que faz o que faz com o cuidado e a atenção de um mestre zen. A gente fica fazendo roda com o lugar de professora, eu ensinei um tanto, ela ensina muito até hoje.

Gabi Butcher – companheira querida. Gabi é uma fotógrafa única, que vê como ninguém as pessoas. Seu olhar é que trouxe à vida este Descabeladas. Ao longo dos anos e através do LuluzinhaCamp e das muitas amigas em comum a gente foi se misturando. Somos iguais e diferentes. Ela é a querida que me faz companhia e me faz uma mulher mais generosa e mais humana. E que busca chegar à lua, mesmo sem ainda ter o foguete. E que ainda me traz à tiracolo DOIS presentes: Drew e Rebeca! Me vejam fazendo coração com as mãos pra esta família.

(quem não veio) Paula Plank – irmã, amiga, companheira de vida. A gente se conhece há décadas (tá, é uma e um pouco, mas tá valendo), briga, reconcilia, discute, chama a atenção. Uma amizade que virou amor da melhor safra, graças aos perrengues que passamos juntas. Perdas, alegrias, conquistas: tudo o que acontece na minha vida, a Paula sempre é a primeira a saber, a falar, a palpitar. É a minha consciência quando falho, a mulher com quem sempre conto – na alegria e na tristeza. E, sim, é off-line. E palpita em tudo o que faço, porque tem olhos de lince…

As crianças

Nina – filha da Nuna, é doce e querida. Ainda não conheci muito, mas amo muito essa menina bonita.

Rebeca – tem como não amar essa arianinha? Espirituosa, doce, delicada. Seus olhos negros são poços onde eu me afogo de amor. Amo o abraço, a magreza da menina no auge, o quanto a gente é parecida. É Luluzinha mais que ativa, presente em todos os encontros. É com #aos8 que reencontro a minha infância, revivo o que já fui e posso ser uma mulher que acolhe.

Para atravessar o inferno da quimio: amor

Estou me devendo este texto há tempos. Desde o começo desta jornada já se foram muitos meses. Falta pouco, muito pouco, para o primeiro ano de caminhada. Ui! Se vocês quiserem mapear racionalmente o que EU fiz, seguinte:

  1. Cirurgia – era pra ser uma, foram duas!!!
  2. Quimio – o protocolo eram 4 AC e 12 Taxol. Eu tive uma alergia tardia ao Taxol e alergia absoluta – com direito a choque anafilático – ao taxafere. Acabei com mais 2 de FAC. Não tentem entender as siglas, são nomes de remédios que eu JURO: quero esquecer.
  3. Radioterapia – é a próxima etapa. Todas as “irmãs mais velhas” (aka as moças que já se trataram) dizem que é tranquilo. Minha amiga querida e contemporânea já escreveu dizendo que tem dicas. [a gente sempre tem]. Só depois de ter alta da quimio, ok? Ainda temos alguns dias pela frente.
  4. Hormônio Terapia – o meu tumor é triplo positivo para estrógeno e progesterona. Esta fase vai durar cinco anos. Isso é bom – porque é simples evitar a volta da desgraça – e é péssimo – porque chegou uma menopausa e eu tô ODIANDO esta conversa. O meu nome do meio, desde agosto tem sido: sublimar.

Vocês perceberam que estou no meio do caminho? E já topei com muitas pedras. Que, não, não vou compartilhar aqui. São pedras pessoais, intransferíveis que os meus eleitos conheceram, ajudaram, correram, se viraram e me ajudaram a quebrar.

Eu peço que a Zel seja atendida no seu requerimento: que cada dia seja mais fácil e menos doloroso.

E, gente, quimioterapia não só dói, como faz coisas indizíveis com nossos corpitchos e, por consequência, almas. E eu descobri a receita para, nestas condições de temperatura e pressão, ter dias fáceis e menos dolorosos. AMIGOS.

Os amigos, este tesouro.

Quando penso nos últimos meses, descubro duas categorias principais: os visíveis e os invisíveis.

Amigos visíveis são aqueles que conseguem estar, conviver, falar, escrever, ligar. É com eles que você conta quando precisa de companhia para dormir em sua casa – porque tá com medo, a saúde periclita ou whatever. São os santos que ajudam quando você se vê sem saber ao certo o que comer quando você está absolutamente inapetente e/ou enjoada. E ainda vêm cozinhar para você. Os visíveis te ligam, escrevem, se propõem a te ensinar a aplicar injeção. Eles mandam flores lindas, sem aviso prévio. Entram quando você menos espera no GTalk/MSN whatever pra dizer que estão contigo, perguntar como está, dizer das suas orações/esperanças/desejos de melhora. Fazem vaquinha. Doam coisas bacanas para as rifas. Inventam jeitos de ajudar – porque você tá penando no meio do inferno e eles sabem. Te levam pra praia. Te mandam pacotes, recheados de mimos que te fazem sorrir. Mandam DMs com exigências de notícias. Aparecem lááááá do Rio de Janeiro, sem prévio aviso, pra te visitar. Correm para vir trabalhar com você, porque você PRECISA do trabalho (e de estar na rede) pra se sentir gente e sabem que você não dá conta sozinha. São generosos, de uma forma silenciosa, e simplesmente te mandam dinheiro sem dizer quem são. Te ajudam a deslindar a dificuldade de se tratar e enfrentar o câncer da gata velhinha – que também está em quimioterapia. Se reúnem para te visitar, de forma constante, segura, certa e te enchem de alegria, mantêm o seu riso e o seu sorriso firmes quando você está à beira do desespero. Trazem chás maravilhosos. Te ligam só pra contar do dia. Se arrumam para a festa – mas estão indo ao hospital te ver. Trazem bis. Ajudam no dia a dia técnico – reformas do prédio, consertos em casa, do computador. Trazem encomendas. Criam desenhos lindos – pro site, pra invenções. Te falam do quando te admiram, te gostam e desejam que você siga em frente e vença. Te mandam turbantes. Aparecem com bonés e cachecóis lindos e combinantes. Fazem toucas combinando com a malha. Falam de você no grupo em que trabalhava – e que não pôde acompanhar por conta do tratamento e dos riscos de infecção. Vão viajar e lembram de você. Moram fora e lembram de você quando há uma mala pra te trazer aqueles objetos de desejo que só na Amazon tem [e te livrar da sobretaxa da Receita]. A lista, meus anjos, pode ser infinita e varia de acordo com a freguesia. Devo, claro, ter deixado vários atos que me emocionaram e empurraram para o fim da quimio. Saibam, cada um está aqui comigo e me enche de emoção e gratidao.

Os invisíveis? São silenciosos, alertas, atentos. Eles ligam para a minha mãe, ficam de olho nas timelines, nos grupos de discussão de que participo. Eles estão lendo todos os relatos, porque pediram, e não se manifestam. Alguns até rasparam a cabeça junto comigo – mas não contaram. Os amigos invisíveis mandam o melhor que têm de si. Às vezes nem contaram pra mim que estão de olho. Uma, inclusive, acabou com diagnóstico de câncer de mama – e trocou de categoria, saiu do armário invisível e veio conversar.

E aviso: aqui não tem ordem de importância. Todos contam. Todos emocionam. Todos carregam nossos corpos e almas maltratados de veneno para o caminho da vida. Que já não é a mesma e na qual habitam estas pessoas lindas, nossos amigos. Que ganharam status de salva-vidas. Porque, ao fim e ao cabo, é isso que amigos fazem: salvam vidas.

Minha mãe, meu pinhé.

Ela aguentou… Já estamos com cinco meses de tratamento, com susto, mal estar, resmungos. E a nossa relação sai muito mais tranquila e profunda desta jornada. Morreu de vergonha da minha alegria, da careca assumida, das roupas esquisitas, da falta de maquiagem, do meu descaso com “o que vão pensar”. Ajudou nas compras, me amparou na hora mais escura – coloquem no plural. Largou o trabalho, o marido amado, o filho… sobre os cuidados comigo só ficou o neto, meu sobrinho querido. De vê-lo todos os domingos, a vovó não abre mão – e ainda me arrasta junto, porque o moleque alegra até a tia mais derrubada de quimioterapia 😀

Descobri, no caminho, uma família. Que é feita de gente que tem meu sangue, outros que não têm – mas deram sangue por mim.

Graças a cada um de vocês – por menor que tenha sido seu esforço, manifestação ou silêncio – cheguei aqui. E posso, já já, pensar e planejar 2013!!!

Gratidão define.

Cabelo cresce, amor também

Este sorriso é um marco. Já estava de alta da segunda e última cirurgia (doloridíssima) e à espera da tal da quimioterapia. Que, já estava avisada, derrubaria os meus cabelos.

Eu nunca tive problema com cabelo – ele cresce! Estava preocupadona mesmo com a quimio e os seus efeitos (os outros). E, no processo, sabia que podia contar com a Letícia – que desde o dia zero tinha dito que ia raspar o cabelo comigo. A Denize, portadora de delicadeza e beleza, também veio. Gabi Butcher, além do equipamento trouxe o maridão, Andrew, no dia do aniversário dele, e a Rebeca linda maravilhosa.

Um feriado gelado, aquele 7 de junho. Cada uma veio com seu arsenal. Denize puxou lenços lindos, boné e cachecol que ganhei de presente, seu calor e carinho. Letícia chegou com sacolão ao lado, pronta pra fazer o melhor preparo do dia. E a Gabi veio com seu olhar mais que especial. Juntas, tomamos chá, pensamos histórias. Drew, claro, deu pitacos. E Rebeca ajudou a encher a sala de leveza. Eu aceitei relutante ser o centro da história e me senti arrepiar quando uma das três pronunciou as palavras: “Aí a gente publica, linka entre nós, conta pra todo mundo e mostra que dá pra ser feliz”.

Opa!

Na minha imaginação era pra ser #piadainterna e segredo. E aí me dei conta que a careca, além de tudo, era um sinal concreto da cura a caminho, da passagem do câncer por mim. Que seria algo muito claro para quem estivesse fora. Segui na curtição de cortar o cabelo – e processando a preocupação de como colocar esta história no mundo.

Aí, Denize, Letícia e Gabi me pegaram pelas mãos e começou o rito de passagem. Escolhemos o lugar da cadeira. Lembrei de fazer uma maquiagem. Lembramos que toalhas seriam necessárias. Alguém pediu ombros de fora e eu arranquei malha e camiseta. O aquecedor, claro, estava ligado no máximo…

Depois caíram as muitas mechas de cabelo. E a Letícia empunhou a máquina de tosar… e veio com todo carinho…

Os cabelos não paravam de cair e eu pensava/falava: de onde sai tanto cabelo gente???

E junto com os cabelos, a gente riu, conversou, contou, brincou. Entre fotos de ombros de fora e momentos de preparação, discussões sobre a produção, Denize cuidava e me agasalhava… Enquanto eu me despi dos cabelos eu  serenei, baixou uma enorme paz. Os olhos de todos brilhavam ao olhar pra mim. E não, eu ainda não sabia como tinha ficado – porque as danadas, por luxo, não me deixaram olhar no espelho.

 

Denize, mestra dos pincéis, veio fazer retoque no make.

Eu via a Letícia com os olhos brilhando, enquanto ajudava a fazer a luz.

Gabi e todos me faziam posar e posar e posar. Vida de modelo é luxo e alegria, minha gente!

A curiosidade cresceu, cresceu, cresceu. Fiz foto com a minha plaquinha preferida: meu riso é o que me define. E aí fomos todas ao espelhão ver o resultado.

 

Babei!!! Gente, é o máximo ficar careca! Liberdade total, sabem?

Depois do espelho, Denize fez o seu retoque; Letícia se enfaixou na toalha e mandou bem numa máquina dois. E quando a gente já ia ganhando a Gabi, o Andrew disse que não!!! 😀

Sabem um dia sem defeito? Foi este! Fiz uma passagem importante com amor e todos que estiveram aqui (inclusive esta criança iluminada com 8 anos)  juntaram os meus muitos pedaços de um jeito novo, mais leve e livre.

O melhor: sim, eu brinco com a história. Já concordei que a Rota me pegou; outro dia foi a Fundação Casa, ops, FEBEM (#oldage detected)… E também aproveito para causar choques pontuais dizendo em alto e bom som que eu tive câncer.

Atenção ao tempo verbal: TIVE!!! E tenho certeza que com alegria, carinho, delicadeza, gentileza e estas mãos maravilhosas em torno de mim, ele não vai ter forças de voltar.

Deixo um conselho: raspe sua cabeça pelo menos uma vez na vida. Máquina zero, um, dois, três, não importa. Pelo menos uma vez na vida, raspe tudo. Mude tudo. De mãos dadas com quem te ama, te quer bem você só tem a ganhar.

Minhas companheiras, obrigada. Que este nosso projeto possa ajudar outras (e outros, quem sabe?) a viver melhor e descobrir outros caminhos.

Junt@s

Na saída da primeira consulta da Lu no SANADI, enquanto esperávamos o elevador, eu, ainda passada com o diagnóstico da minha amiga (embora feliz da vida com o ótimo prognóstico) e bem virada com a chegada dos quarenta, resmunguei:

–       É, Dona Lúcia, daqui prá frente é só ladeira abaixo… vai acostumando, nêga.

–       E ela: – Credo, Lets, câncer?!

–       E eu: – É… câncer, colesterol alto, diabetes, esclerose, isso sem falar no alemão…

Nisso ela explodiu em gargalhadas e eu junto. E foi aí que  optamos pela limonada e decidimos rir desta merda toda!

É verdade que a gente bem que podia ter ido prá casa chorar as pitangas, se recolher, sofrer bem sofridinha a dor de uma doença foda e o medo e a angustia que vêm junto com o pacote. Seria digno.

Mas somos destrambelhad@s. Temos bom humor e sabemos de antemão que a vida é uma grande pegadinha (Sorria, você está sendo filmada!) e o que ela quer da gente, como diria o Rosa, é coragem. E que a coragem de rir dela e com ela é o que vai nos redimir.

Acreditamos nisso. E naquele saguão optamos por nossa fé no riso frouxo.

Decidimos também que essa era uma história, como todas as historias significativas, para se vivida junto. Coladinha em quem amamos, em quem nos faz bem, com quem rimos junto! E também que deveria ter ritual, virar festa. Afinal de contas, que seria da vida sem pretextos para festa?

E nem precisamos chamar ninguém, não precisamos combinar nada, marcar data… chegamos tod@s junt@s, com o mesmo espírito, a mesma estranha mania de viver.

E foi assim que em uma tarde fria de inverno nos descabelamos, rimos, cantamos, choramos e nos aquecemos. Junt@s.

Obrigada, Dona Lu, por compartilhar a vida e o riso com nosotros!

‘O’ ritual de passagem

Normalmente sou verborrágica. Falo muito, dou muitas risadas e tenho sempre uma opinião formada sobre tudo. Modéstia à parte, tenho um talento para expressar meus pensamentos de forma coesa e descritiva.

Nesse caso, abro uma exceção. Vendo minhas fotos sobre esse dia especial, acredito que nenhuma palavra, confiem na fotógrafa, faria juz ao que experienciei. Minhas imagens narram as emoções que senti, que foram muitas e intensas, melhor do que seria capaz de traduzir em palavras, por mais que tentasse.

Posso falar da amiga… dizem que minha gargalhada é contagiosa, mas acho que a dela é epidêmica. Sabe aquele som que vem de dentro de um estalo, puro impulso, elétrica… Na verdade elétrica é uma definição bem precisa para essa mulher. Uma energia contagiante, que move pessoas, cria, faz e acontece. Mesmo em um momento adverso como esse a vida salta pelas cordas vocais, pelo brilho nos olhos e o eterno sorriso.

Nesse dia 7 de junho fui participar de um ritual de passagem… fomos, todas nós apoiar nossa amiga, mas sinto que saí ganhando… vivi um momento único. Presenciei uma força impar e ganhei… ganhei coragem, ganhei culhão. Pude mostrar para minha filha de 8 anos que uma doença pode ser curada e que os pequenos rastros que ela vai deixar (e depois irão sumir) podem ser celebrados. Pude mostrar que a amizade é isso celebrar o momento, ver o lado bom em coisas ruins (sei que pareço Polyana, mas quem me conhece sabe que sou e não nego… )

Obrigada ao Universo por ter me regalado essas amigas… esse dia foi inesquecível, marcou.
Obrigada Joaninha por me deixar invadir esse ‘seu’ momento.
Obrigada Lets, De, Drew e #aos8 pela companhia, pela parceria.

Gabi Butcher

De um limão faça uma caipirinha

7 de junho é o meu aniversário.

Gabi, minha adorada mulher e fotógrafa, me disse que justamente esse era o dia escolhido para ser solidário com uma grande amiga nossa, Lu Freitas. Teríamos que registrar um momento difícil de nossa amiga – rapar a cabeça!!! A porra da doença dela tem uma merda de tratamento (quimioterapia) que faz cair cabelo. Logo, deveríamos estar juntos para fazer isso voluntariamente antes que a dura realidade o fizesse.

Sabia que teriam outras megaluluZONAS que adoro participando do processo, Glamurosa La Reina e a Sacana Lets, além de #aos8, que também se considera LuluZONA Master, no embalo.

Comecei um tanto tímido, confesso. Acho que foi o repeito pela dor alheia, além do tanto de hormônios femininos rolando no ar. Estava me comportando como um convidado. Óbvio que isso não durou nem 15 minutos. Meu All in (#poker) mode on falou mais alto. Abri uma cerva e catei uma câmera que estava de bobeira. Estava armada a festa. Até que #aos8 me sai com esta – Estamos festejando o que papai?

Fudeu…

Pensando como pai, sempre me coloco na responsa de responder a verdade, mas de forma compreensível para o universo de #aos8. Bom, a nossa amiga Lú quer cortar o cabelo voluntariamente para não ter que ver ele caindo. A gente está aqui para passar por esse momento juntos e tornar isso um celebração à vida, aos amigos e tudo de legal que vem dessa relação. Quando vi, fui obrigado a racionalizar e traduzir em palavras aquilo que aquelas LOUCAS desvairadas estavam fazendo com tesouras, máquinas, bonés, colares, mensagens escritas e piadas (muitas).

Isso tudo, rolando enquanto aumentava o som, abria mais latinhas, mandava a Lú fazer caras de Faca na Caveira e outras loucuras mais. Sensacional! Quando vimos, já estávamos em clima de pau no cú do câncer. O rock rolando solto, gargalhadas deliciosas, piadas sem o limite chato do correto, enfim brodagem de primeira categoria.

Lú, obrigado pelo meu presente. Ensinamos algo que quero que minha filha leve para o resto de sua vida. Não escolhemos tudo pelo que passaremos na vida, mas podemos escolher sim como vamos encarar isso. Que seja sempre com sorriso no rosto, de peito aberto e com grandes amigos.

Andrew Pieries

Uma Reina Descabelante!

Combinamos de nos encontrar na casa da Lu  e fazer uma reunião muito íntima, entre amigas que são muito diferentes entre si, mas que nutrem muito carinho, respeito e admiração mútua.

Tão logo soubemos que nossa amiga estava curada, mas iria rolar uma quimioterapia básica e a queda de cabelos seria um dos efeitos colaterais mais visíveis, a Lets logo se prontificou a raspar a cabeça no mesmo dia que a Lu e eu fui na aba,  junto com a Gabi que registrou esse momento pra gente lembrar pra sempre. Assim formamos uma trupe delirante.

Já fiquei sem cabelo muitas vezes ao longo da vida e faço uso desse recurso sempre que preciso zerar a quilometragem, me sentir liberta, fortalecida e renascida. Foi assim quando casei. De novo quanto virei mãe e por aí vai. Recomendo fortemente e claro, torcendo que não seja por motivo de doença ou efeito colateral, que ninguém é bobo de dourar a pílula.

Mas hoje eu quero contar como foi aquele dia e o que aconteceu depois dele.

A ideia era mesmo passar a máquina nos cabelos da Lúcia, para que ela pudesse se acostumar com a queda antes do coice. Sim, esta é uma expressão dura, mas a realidade pode ser ainda mais, se não encaramos os percalços com bom humor e leveza. E eu pessoalmente, acredito que a sensação de perda (do cabelo ou do que for) é coisa que se puder ser amenizada, melhor pra todo mundo. E assim a tarde seguiu, entre ideias, risos e extrema cumplicidade.

Ficar sem cabelo não é nada perante tudo, o pacote completo da mudança que essa doença promove. Depois de algumas conversas, a Lu, com pouquíssima resistência, se entregou aos nossos cuidados. Já não tinha mais por onde escapar. Corajosa demais essa moça!

Comecei o serviço com uma tesoura de cozinha, pois era a que tínhamos em mãos. Logo depois dona Letícia e sua expertise capilar entraram em campo com tesourinha afiada e maquininha em punho e oficializou o propósito, num profissionalismo tamanho que se não fosse cozinheira, podia ser cabelereira fácil.

Coube-me dar um up na maquiagem, quando a coisa começou a esquentar, poses e fotografias, cicatrizes expostas no corpo desnudo e uma euforia danada tomando conta da gente, numa corrente de amor que circundava aquele momento, que nem consigo descrever, mas as imagens aqui e ali traduzem muito bem: Pura magia.

Quando nos demos por satisfeitas, chegou o momento da Lu se olhar pela primeira vez no espelho depois do furdunço e vislumbrar-se descabelada. E só ela pode contar o que sentiu, mas eu fiquei emocionadíssima em ver ali uma mulher cheia de esperança e vida nova.

Cabelo cresce.

Logo depois chegou a minha vez e confiei o serviço a Letícia, que  passou a máquina apenas nas laterais, pois venho ostentando, faz alguns meses, um moicano bem ridículo, que chamo de corte calopsita, com alguns fios bem longos que contam um outra história bem minha. Eles também irão embora, deixando outra dor pra trás, mas por hora, decidi preservá-los para o meu próximo momento redentor.

A Letícia, toda destemida, cortou meu moicano novamente e Gabi não perdeu nenhum momento, sempre com um olhar delicado e amoroso, auxiliada por ser marido Andrew e sua filha Rebeca, que acompanharam nossa aventura do começo ao fim.

E o que mais posso dizer sobre esse dia?! Que com aquele monte de cabelo espalhado por mim e pelo chão eu vi a vida e o amor acontecer. Que cada fio daquele que foi pro lixo, levou consigo o que não presta, o que não serve, o que não cabe mais em ninguém. Que ter amigos de fé é a melhor coisa que podemos querer por perto, em todos os momentos e principalmente nos mais significativos e transformadores.

Ali, naquela tarde, renasci junto com a Lu. E o melhor de tudo foi renovar minha fé no amor e na amizade. Perceber que unidas somos fortes, somos mais, seja como e onde for. Só posso agradecer pela honra de fazer parte disso junto esse povo tão luxuoso. Sou uma descabelada com orgulho. E sei que de um jeito ou de outro, ainda vou me descabelar muito por aí. Por isso, sigo, fio a fio, em frente.

Denize Barros@lareinamadre