Porquê

[2012] O Descabeladas nasceu no susto do susto. Eu descobri um câncer de mama. E convoquei azamigas para o suporte. Elas foram vindo na ordem da vida, do jeito que foi. Fez-se um grupo de mulheres guerreiras, que me apoiaram ao longo de um caminho que só está no começo.

De novo foi com Gabi, Lets e Denize que resolvi enfrentar a possibilidade de perder os cabelos. Como sempre tive cabelo curto, não havia grandes neuroses, apenas a necessidade de tomar as rédeas do processo em minhas mãos.

O que eu batizei de Careca is Beautiful entre nós virou Desacabelar, descabeladas. A Let trouxe a música tema e a roda de amizade se formou em torno de mim. Gabi, lindona, trouxe Andrew e #aos8, dois grandes amores. E sei que Pequeno Bagre, companheiro de Letícia só não veio porque imaginou que seríamos só nós, mulheres.

Com esta “turma” que é muito, muito maior, saibam, eu pude enfrentar sorridente a primeira sessão de quimio. E já estou a caminho da terceira.

O Descabeladas é um espaço pra luz, pra transformações. É resultado das artes de cada uma de nós. E a prova de que só morre quem vive – e dureza mesmo não é adoecer, mas se esquecer de viver. Do meio da dor – e do grito – vem a roda de de amigos (porque nossos homens especiais também participam) que me acolhem, me cuidam, me oferecem música, ombro, arte, amor, sorriso.

É por conta deles que posso agradecer cada mal estar e estranheza do tratamento, com um sorriso no rosto.

E é com eles que posso andar de cabeça levantada, careca, sem disfarces, e tentar formular e reformular minha própria vida.

Nada disso caberia no Ladybug Brasil. E ganhei da Cria Real (encarnada em Denize e Marcelo) logo, montagem e organização deste cantinho aqui.

Usando nossas artes, saberes e bem querer, nos juntamos. E no fazer, descobrimos que esta união, este “dar as mãos” é poderoso, curativo e muito especial. A gente já tinha esta prática, da união de mulheres que conquista muito, de outros lugares e ambientes que cultivamos na internet e na vida.

É esta a sabedoria, em nossa opinião, que pode fazer luz em plena escuridão. Que ajuda a ser feliz mesmo quando as cicatrizes estão frescas e doloridas. Que permite rir, sorrir, agradecer. Que encontra a música para cantar e seguir em frente.

No final, a gente conquista a própria vida, de forma responsável e absolutamente livre. E, com a vida conquistada, podemos olhar nos olhos da morte e saber quem ela é.

Com o conhecimento, o apoio e o amor, tudo ficou mais leve e possível. E nós acreditamos que é possível replicar esta experiência.


A Vida Presta, 2024

Em 2021, ainda fazendo hormonioterapia, descobri um nódulo dolorido na base do meu pescoço. Foi uma grande sorte, porque foi o sinal que o câncer primário havia se espalhado pelo corpo, uma coisa chamada metástase no jargão médico.

Entre o nódulo e o exame que confirmou o lance, estávamos em janeiro de 2022, a bordo da minha primeira COVID (a bordo de quatro doses de vacina). Sim, era metástase, o meu maior medo.

Graças à Dra. Thaís, que me atendeu com o resultado, eu “sosseguei” – mais ou menos. Não contei para o meu pai que estava doente de novo, mas contei para todo o entorno de novo.

Agora, tudo mudou. Denize está longe, Gabi e Drew moram em Toronto, #aos8 tem, hoje 20 anos, está na universidade, vejam só, e já nem mora com os pais.

Letícia e Pequeno Bagre, deusa é mãe, seguem aqui segurando a minha mão. Junto com outras pessoas que não estão nas fotos aqui: Luciano Bortoletto e Dine, Sueli, meus irmãos, Deh… Pra variar eu tenho uma turma porreta que me cerca.

Não sei se seguirei escrevendo só esse site. Provavelmente, não. Tenho como consultores alguns profissionais que me atendem – Pequeno Bagre, meu oncologista, Márcio, o farmacêutico, entre outros profissionais.

Sim, os conteúdos médicos, a partir de agora, passam a ser revisados por profissionais.

 

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